"[...] Piadas são discursos, e discursos têm efeitos, têm poder: é através de discursos que constituímos, por exemplo, as ‘sacrossantas’ noções de homem e mulher, de moral e imoral, de ordem e progresso, de ‘humildade’ papal, de ‘vandalismo’. Piadas se inserem como mais um entre inúmeros instrumentos para construirmos o mundo, e infelizmente construímos (ou talvez tenham construído para nós) um mundo fodido de merda.
Sendo assim, torna-se necessário analisar que mensagens estas supostamente ‘inofensivas’ piadas estão transmitindo [...]"
Continuem lendo o artigo de onde tirei este trecho clicando no link a seguir:
Assistam este incrível documentário. Interessantíssimo material sobre o humor, na ótica de muitos humoristas!
E mais! Voltando para o trecho do artigo, confiram o comentário-adendo de "Rodrigo Dourado":
"Vivi, acho seu texto contundente, esclarecedor e necessário. Sou pesquisador e minha ‘praia’ são o teatro e as identidades sexuais contemporâneas. Tenho ‘alguma’ leitura ‘teórica’ sobre as identidades trans* por conta dos Estudos Queer e porque acompanho, com atenção e interesse, os debates sobre este tema. Sem questionar seu argumento, que acho absolutamente legítimo e fundamentado, penso que seria importante para ampliá-lo fazer uma aproximação da questão do “riso”. Do “que” se ri, “quem” ri e “como” ri são assuntos da ordem do dia. Se a gente pensa com o Bakhtin no riso popular, não é possível imaginar ‘objetos’ que estejam a salvo do riso, que é ‘universal’ e, portanto, não diferencia seus ‘alvos’. No entanto, o riso moderno-burguês torna essa questão ainda mais complexa, porque é no palco das representações e dos jogos de poder que são estabelecidos os ‘alvos’ do riso, a partir de um entendimento sobre o que é ‘aceitável’ ou ‘não’ no território do humor (Bergson, por exemplo, fala num riso que ‘pune’, ‘castiga’ seus objetos). Meu limite, por exemplo, passa pela ‘doença’: não acho aceitável que alguém faça piada com qualquer tipo de enfermidade. No entanto, reconheço: é uma vertente do humor e há quem disto sorria. Os meios massivos tornaram esse debate ainda mais complicado, porque são um terreno permanente de embate sobre as representações e, penso eu, devem ser tensionados mesmo a fim de que não sejam perpetuadas as ‘dores’ de determinados grupos sociais. Porém, quando Bakhtin falava num riso universal, ele não falava de um efeito universal do riso (isso nunca vai ser possível), mas que o ‘universo’ podia ser todo ele alvo do riso. Isso quer dizer que nós não podemos perder de vista que o riso sempre implica uma visão de mundo (social, étnica, sexual, etc.) e que, enquanto houver diferenças neste mundo, haverá os que ‘riem’ enquanto outros ‘choram’. É lamentável, mas faz parte dessa ambiguidade do riso. Para não ficar em cima deste muro ‘conceitual’, gosto de pensar que o ‘bom’ humor, para mim, é aquele que utiliza o riso para instaurar uma crise, para mostrar o que não estava “visível”, para ‘atingir’ os que se julgavam imunes a ele, para, enfim, questionar o ‘status quo’. Esse riso, no entanto e lamentavelmente, terá sempre de conviver com aquele outro, o que reforça o ‘status quo’ e adora deixar as coisas no exato lugar onde elas estavam. Esforcemo-nos (como seu texto faz) para que, pelo menos nos meios massivos, o riso que coloca o mundo em ‘movimento’ possa suplantar o riso que deixa o mundo ‘exatamente onde sempre esteve’. Espero ter contribuído um pouco."
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